Sábado, 2 de Junho de 2007
Cardielos: "Por favor não calem as fontes"
OBSERVÂNCIAS"Por favor não calem as fontes"
 
Sem querer entrar nos meandros das historietas ou das fábulas, que de uma forma pronunciada, acaba sempre airosa, depois de ultrapassar as turbulências das sagas mais tenebrosíssimas.A minha narração sem qualquer atributo pejorativo intencional, tem cabimento apenas, como mera manifestação de desagrado, quanto às decisões tomadas em que os meios não justificam os fins, talvez neste dialogo,  em que o avô conta ao seu neto a história da sua fonte, possa exemplificar de alguma forma, esta minha afirmação.
            Meu querido neto. É com muita saudade, que te vou falar sobre uma fonte, não vou entrar em muitos detalhes para não prolongar muito a nossa conversa, que quase não teria fim, se conta-se todas as histórias relacionadas com ela, certamente, muitas façanhas se passaram ali a seu lado, mas ela discretamente sempre soube guardar segredo.
Existiu nesta  Freguesia de Cardielos, uma fonte denominada como a Fonte de Sambordêlo, ninguém sabe o seu início, apenas se sabe, que a nascente é ali mesmo, entre os penedos naturais, muito perto da saída da bica, com um banco em granito no lado direito, a bica em ferro fundido com um buraco em cima, que  as pessoas utilizavam para beber, tapavam com a mão a parte da frente da bica, e a água rebitava para a boca pelo orifício livre. Naquele tempo pouca gente tinha poços de água no quintal, utilizavam-se, os característicos, cântaros de barro preto. Alguns ornamentados com desenhos, estes, mais utilizados pelas moças que graciosamente os exibiam, tendo sempre junto dos cântaros, uma toalha branca de linho, com a qual, com grande habilidade faziam a rodilha, que servia de amortecedor na cabeça, onde o cântaro verticalmente se apoiava. Também existiam cântaros de barro vermelho, mais utilizados, quando os outros começavam a escassear, eram mais frequentes na feira de Ponte de Lima. Os cântaros tinham um local onde ficavam depositados normalmente nas cozinhas das habitações, que se chamava cantareiras. Colocar a água em casa, era uma preocupação constante naquele tempo, uma tarefa que fazia parte da ordem do dia.
            Recordo-me como se fosse hoje, de ver sentado naquele banco junto à fonte, o professor Antoninho. Era o antigo professor primário da aldeia, pessoa forte com o chapéu castanho enfiado na cabeça, a seu lado, a sua inseparável bengala, suficientemente forte para o ajudar a movimentar. Era homem de muito saber. Quando apanhava os rapazes, que sorrateiramente acompanhavam as mães à fonte, ele dizia: - Anda cá meu menino, sabes, o teu pai era da família dos….. o teu avô era um homem assim….o teu bisavô casou com fulana da família dos… vagarosamente, destrinçava toda a linhagem de qualquer família da terra. À tardinha, mais no Verão, o largo da fonte era muito concorrido. Eram as raparigas, que depois de regressarem dos trabalhos do campo, iam com a melhor das vontades à fonte. Eram os rapazes que depois de um dia de labuta se encontravam com as raparigas, assim ao redor da fonte havia magia e encanto que tinha o perfume de uma vida de felicidade a dois. Chegavam a vir pessoas de longe buscar água, até da cidade vizinha, tal era a fama que esta água tinha, era das melhores águas das redondezas. Mas os tempos mudam, o progresso transforma as coisas, as pessoas começaram a abrir poços para ter água em casa. Começaram a fazer mais casas, mais fossas de saneamento. A água que nascia no meio dos penedos começou a ser contaminada, as raparigas já não precisavam de ir á fonte, os locais de encontro eram outros. Mas a velhinha fonte continuava ali a jorrar água cumprindo o seu dever, embora com as análises, bastante descontroladas, continuava a fornecer a água para o tanque de lavadouros de pedra aparelhada, em que as mulheres podiam lavar a roupa protegidas por uma cobertura.
            Certo dia tudo se transformou, o Senhor que estava à frente dos destinos da aldeia, já não aguentava mais com o ecoar rítmico do murmúrio da queda de água, um dia, configurado pelo mau humor, deu uma ordem estridente e determinada, “fonte -  cala-te”, mas a fonte, sempre nas mesmas lamentações, em jeito de praguejar, fez ouvidos moucos continuando no mesmo murmúrio, com o mesmo som, esta falta de respeito não podia acontecer, o senhor foi mesmo aos arames, e replicou – ai sim - tu estás a pedi-las, não perdes pela demora, logo arranjou uma maquina tipo bulldozer, e arrasou a fonte que ficou submersa no aterro sufocando-a num arremesso de ira - agora meu netinho, um minuto de silêncio, por quem tanto fez pelo ser humano ao longo da sua existência e, foi tão cruelmente sacrificada, a isto se chama ingratidão.
            Meu comentário; Acho que o avô deveria contar mais sobre a fonte ao neto, porque o neto, estava calado, a ouvir com muito interesse. Há pessoas sensíveis e insensíveis. Tenho visto em muitos locais, colocarem um bloco em granito tosco, como monumento, para assinalar o local onde algo se passou de importante, pode ser dirigido a animais, pessoas, ou do próprio local.
            E tenho a certeza que esta fonte nunca vai morrer, hoje mesmo verifiquei, que debaixo dos pedregulhos a água corre para uma pequena represa. Não sei como esta represa se salvou do holocausto de três ou quatro anos atrás, a verdade é que as lágrimas da fonte estão ali depositadas e continuam correndo para refrescar os campos, e no próprio terreno por cima da fonte, hoje tive ocasião de reparar que nasceram muitas plantas medicinais, vou dizer o nome de algumas que certamente poderão colher, “Camomila”,(foto) “Lapsana”, “Borragem”,Azedas”, “Avoadinha”, “Fumaria”, Erva férrea”, “ Papoila”, “Escrofulária”, etc.
            Apelo a quem ler este post, que não se enerve, que vá a este lugar desprezado colha plantas e faça um bom chá, algumas destas plantas tem sido descritas no meu blog. Estou convicto que com esta nova autarquia, que tem na liderança uma Senhora e as senhoras são mais sensíveis, se condoa com as lágrimas da fonte.
            Como se pode verificar, a fonte foi homenageada como atractivo de um poster, da festa da aldeia muito recentemente.
 
 
 
Fonte de Sambordêlo-1994
contra capa de brochura (escrevi poema alusivo)
camomila nos terrenos da fonte (foto de hoje)
A fonte existia perto das flores-reparem no empedramento da sepultura
vale de lágrimas da fonte

sinto-me: sinto-me num velório

publicado por J. Alves às 18:39
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5 comentários:
De antonioduvidas a 6 de Junho de 2007 às 00:26
Ora aqui temos mais uma crónica, Sr. Alves, que nos fala dos costumes da sua aldeia aí no Alto Minho. Portugal era um país muito igual pois na minha terra que fica entre o Douro e Paiva essas vivências à roda da fonte eram idênticas. (Agora andam a dizer que o país não é todo igual, num lado há desertos!...) Uma pequena diferença, na minha terra usavam-se os canecos que eram feitos de madeira e que quando levados à cabeça colocavam no cimo da água uma cortiça para a água não baldear tão facilmente.
Fala depois nos conhecimentos do professor primário. Pois eu que também o fui, sou um admirador desses antigos professores que eram de facto pessoas de saberes. Também já tive oportunidade de manifestar o meu apreço por esses antigos mestres nomeadamente da minha professora. Pode visionar "Os velhos professores primários" no blog:
http://magisterio6971.blogs.sapo.pt/2007/03/

Parabéns pelo seu artigo, saudações
(antonio)


De J. Alves a 6 de Junho de 2007 às 22:54
António; desculpe dizer-lhe mas você é um espevitador da minha mente um pouco influída, com as suas apreciações, consegue entreabrir uma velha gaveta que tenho no fundo do crânio, nela me revejo eu miúdo de escassos anos, na festa de S. Silvestre a comprar um copo de água por dois ou cinco tostões, a água era enchida na nascente o vasilhame era protegido por um cortiço como aquele, onde se metiam os enxames de abelhas que se apanhavam nas árvores, a tal cortiça era sempre um estorvo para tirar a água, mas era a invenção certa para travar as ondulações da água. Embora a distância que nos separa, as nossas aldeias parecem gémeas nos costumes.


De antonioduvidas a 7 de Junho de 2007 às 11:26
Amigo Alves, nós somos duma geração que tem acompanhado o antes e o depois do carro de bois. Vivemos num tempo fulcral de transição. Andaram os nossos antepassados de gerações sucessivas a ir buscar carradas de mato aos montes para fertilizar as terras que eram aproveitadas até ao tutano e agora num ápice tudo se esfumou!... As grandes feiras de gado que havia por todo o lado acabaram. Portugal vivia do que produzia, as fronteiras eram rigidas, na terra estava a riqueza. Agora o que se vê? Terras que davam pão, dão silvados ou matagais que os incêndios ciclicamente vão destruindo!... Temos o privilégio, ou infelicidade, de ver este desmurar do Portugal rural e a saga não para com fecho de escolas, centros de saúde, maternidades...
Ainda sobre o cantaro coberto a cortiça, pois na minha aldeia na festa anual, já falei nela "Pela ruralidade" em
http://magisterio6971.blogs.sapo.pt/115558.html#comentarios. Esse recipiente também lhe chamavam cântaro, era de folha coberto com cortiça para refrescar a água que era levemente adocicada e com sabor a limão.
Obrigado pela partilha de saberes, antonio


De antonioduvidas a 7 de Junho de 2007 às 22:20
Corrijo para bom português: "pára" e "cântaro"


De Jorge Pereira a 25 de Agosto de 2009 às 19:27
Adequiri e recinstruí a casa que foi habitada pelo Professor Antoninho. Gostaria, se tal fosse possível, de obter mais dados(escritos e em fotografia) da história deste habitante de Cardielos
Grato pela atenção

Jorge Pereira


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