Domingo, 11 de Setembro de 2011
Cardielos- Monte de S. Silvestre o Antes e o Agora

 

 

 

Já lá vai o tempo  em que o monte de S. Silvestre apenas era visitado com a excepção dos dias de festa,  pelas pessoas da aldeia e arredores que ali ocorriam com o intuito de conseguirem proventos substanciais para as pessoas e animais, As famílias mais modestas, sem propriedades suficientes, e em locais com acessos mais propícios para terem uma lavoura estabelecida, embrenhavam-se no monte ali tão perto, para recolherem a lenha para se aquecerem e cozinhar, e os fetos, erva e mato para fazer cama às ovelhas, que faziam a transformação, para estrume (adubo biológico) todos estes elementos, eram atarracados em grandes feixes à cabeça pelo monte abaixo, toda a gente trabalhava toda a gente sobrevivia.O pequeno lavrador da época, já tinha mais subsistência, tinha propriedades em locais de acesso e transporte, neste patamar, era normal possuir, carro de bois e respectivos animais, uma vaca leiteira e uma ovelha, no quintal, um galinheiro, e no “ cortelho” um ou dois porcos para matar anualmente, todos estes elementos eram essenciais, para a sobrevivência, e, de uma forma muito apertada com uma vida extremamente aperreada, conseguia-se sem subsídios de qualquer espécie, sem reformas, sem qualquer ajuda médica,  sobreviver.  Esta engenharia financeira  não precisava do Excel nem formulas complicadas, até porque havia uma pequena percentagem de analfabetismo.  Os bois ao fim de um ano depois de bem treinados eram vendidos e comprava-se outros mais jovens, era um procedimento  análogo , como os clubes actualmente fazem com os jogadores de futebol , a vaca dá o leite para as crianças e velhotes, o que sobra vai para a leiteira que todos os dias passava à porta e apontava os litros num bloco muito usado e sujo guardado no bolso do avental,  a vaca era levada ao boi, ficava prenha, nascia a cria se fosse um bom exemplar macho era escolhido e criado para aparelhar com outro da mesma idade, para formar junta de touros, a ovelha pelo menos anualmente era tosquiada,  a lá, era vendida aos compradores que andavam de porta em porta, depois ia quinze dias passar férias pagas,  para o rebanho

 da Tia Rosária, que sempre ocupava a margem direita do Rio Lima, sem dúvida que este rebanho possuía um corpulento carneiro,  cujo volume de cada corno mais parecia o rodado de um mini 600, nós rapazes ia-mos para o rio aproximávamos do rebanhos  mandávamos uns bofes de desafio ao carneiro, ele parava estancado para nós , quando investia na nossa direcção, hó pernas para que vos quero, a turrar, o bicho  fazia mais  estragos que uma caterpillar de movimentação de terras. A lenha era muito aproveitada, tinha mobilidade individual, os guiços e a garvalha,  os guiços  eram os ramos inferiores da copa dos pinheiros,  à medida que os enormes e velhos pinheiros  cresciam para o céu, iam criando nova ramagem, e as hastes de baixo iam  secando, eram escochados para baixo  com a vara dos guiços, que era composto de uma longa vara de eucalipto seca, direita delgada e afiada, em cuja ponta era adaptada uma foice curvada, já apropriada para partir os respectivos guiços. Nesse tempo o monte mais parecia um pitoresco bosque, Não havia helicópteros nem aviões e os soldados da paz eram escassos, e os fogos eram também raros, quando se notava um começo de incêndio o sino da igreja tocava a rebate, e o povo da aldeia corria com sacholas, ramos de arvores incansavelmente apagavam os fogos  com tenaz bravura, para proteger  as suas propriedades ,não se atinham aos bombeiros,  mas as propriedades estavam sempre limpas, tudo era convertido, depois as políticas alteraram-se, os governos pagavam para acabar com o leite, fecharam as ordenhas, os animais eram obrigados a ser mortos no matadouro, acabaram com as vacas leiteiras, acabou-se com a agricultura artesanal biológica, hoje há meia dúzia de animais bovinos na aldeia, parte das terras estão a monte. Lembro-me da Tia Joana Grila  de manhã bem cedo  atrás de um pequeno rebanho de ovelhas,  com a comprida vara dos guiços ao ombro, a caminho do monte, as ovelhas iam limpando o monte, alimentando-se, ela equilibrando a enorme vara de pinheiro em pinheiro, ia puxando os guiços para baixo que partiam com som estrondoso, acarretava ao longo do dia os molhos de lenha, para armazenar para o inverno. A Tia Joana mulher corajosa, que salvou as ovelhas de ataque de lobo.

O que me fez fluir nestas velhas recordações, foi o facto de no domingo passado, ter estado a conviver  com amigos e familiares, aliás faço-o muitas vezes porque me sinto bem e é um local apropriado para confraternizar, sito, o belo recinto do Santuário de S. Silvestre, Um amigo levou umas castanhas, mas não tínhamos garvalha para as assar,  fomos ao monte e em pouco tempo  arranjamos o suficiente debaixo de alguns pinheiros que não foram devorados pelo fogo. É de reparar que muitas arvores que plantamos no monte  conseguiram sobreviver com capacidade de resistência, a este verão sem serem regadas, entre elas o castanheiro, a amendoeira, a figueira, a cerejeira, ulmeiro e ligustrum, os pinheiros mansos também resistiram, a verdade é que a secura dizimou muitas árvores. Constatei segundo os meus escassos conhecimentos de radiestesia,  com as haste duplas que construí, que no alto do monte há bons fluxos subterrâneos de água, atendendo à movimentação rápida das hastes, isto poderá dar azo a que futuras confrarias se debrucem neste campo, dado as potencialidades  que o monte de S Silvestre possui, poderá vir a ser um verdadeiro ex-líbris de todo o nosso Concelho. A corrida para a limpeza do monte continua um pouco lenta porque é muita exaustiva, o muito obrigado a bons amigos do monte que juntamente com alguns mesários nos ajudam no arranque da giesta.

O recinto do Santuário, as paisagens únicas que se avistam do monte, as condições excepcionais, inclusive as infra-estruturas   que já existem e outras que  estão a ser construidas, fazem deste local , um bom sítio para conviver. Somos responsáveis, pela propagação destes locais fantásticos, cujo proveito deve ser partilhado pelos demais, que ainda não tiveram  a possibilidade de admirar e discernir,  estes recantos deslumbrantes.

 

É triste pensar que a natureza fala e que o género humano não a ouve.

Victor Hugo 

 

 Fotos alusivas a alguns aspectos do momte

A primeira, pode-se ver a fumarada das queimadas,

A segunda, S.Tiago e S- Silvestre protectores do Monte

A terceira, limpeza de árvores

 

 

 

Construção dos assadores

 

Assadores enaugurados em 25 de junho 2011

 

Pinheiros sobreviventes deram a "garvalha"

 

 

O monte continua a ser sustentável

 

Aves esfomeadas vem ao nosso encontro

Procurando as veias de água no alto do monte com dual rod, através da radiestesia

Árvore em crescimento

 

Convívio

 

montes de giestas já secas, que mesários e amigos vão arrancando. Ao lado alguns pinheiros mansos recentemente plantados
 

 

 

A noite cai e o monte adormece

 

 



publicado por J. Alves às 23:32
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